O Experimento

Estamos vivendo um período de adaptação, com excessos de todos os lados, em busca de um ponto de equilíbrio

Por Cris Nogueira 10/10/2017 - 17:29 hs
O Experimento
Filme conta a história de uma experiência concebida pelo psicólogo social americano Stanley Milgram

Há alguns dias, meu sobrinho me perguntou se eu já tinha assistido ao filme O Experimento de Milgram.

 

Respondi negativamente e começamos a conversar sobre o foco do filme. Fiquei curiosa e achei tudo muito interessante.

 

O filme conta a história de uma experiência concebida pelo psicólogo social americano Stanley Milgram, que trabalhou na Universidade de Yale a questão da obediência à autoridade, em 1961.

 

A base experimental dizia respeito ao fato de que indivíduos comuns realizavam tarefas conflitantes com sua consciência e valores sem se sentirem culpados por isso, simplesmente por obedecerem a ordens.

 

No filme podemos ver o experimento, que tinha três personagens principais: o professor, o “aluno” e uma terceira pessoa, que ditava as regras que deveriam ser cumpridas

 

A cena que se repetiu durante todo o experimento era de dois voluntários, que recebiam uma quantia em dinheiro logo ao chegarem à Universidade e já eram informados: “o dinheiro que recebem agora é por terem vindo, independente do que acontecer daqui para frente”. 

 

O detalhe é que o experimento acontecia somente com um dos voluntários, o outro era um ator que sempre exercia o papel de “aluno”.

 

É importante dizer que na década de 60 o perfil de um professor era de um profissional quase endeusado e temido. O aluno possuía um perfil passivo e não questionador.

 

Provavelmente por isso os papéis adotados no experimento recebiam o título de “Professor e Aluno”.

 

Os dois principais atores desse processo, “professor” e “aluno”, eram colocados em salas vizinhas, mas separadas, havendo comunicação apenas por um sistema de áudio, no qual o “aluno” ficava isolado numa sala e o “professor” ficava na sala ao lado com o realizador do evento, que ditava as regras.

 

O “aluno” ficava sozinho e recebia pequenas tarefas do “professor”.

 

Caso o “aluno” não conseguisse acertar a tarefa, recebia um choque elétrico, monitorado e aplicado pelo “professor” na sala ao lado, que se intensificava a cada novo erro.

 

Assim como o “aluno” era um ator, tampouco os choques eram reais, mas o voluntário “professor” não tinha essa ciência, mantendo a punição orientada desde o início do experimento.

 

Conforme os choques eram falsamente aumentados, o psicólogo e seu assistente observavam as reações dos “professores”.

 

Por muitas vezes o “aluno” fingia gritar de dor, pedia socorro, pedia para parar e chegava a simular um desmaio.

 

Havia o registro de um incômodo visível por parte dos “professores”, porém em raríssimos momentos houve a interrupção da atividade proposta, já que eram informados que não seriam responsabilizados por qualquer coisa que ocorresse.

 

Esse experimento foi feito por vários anos, em vários países, com homens e mulheres, mantendo um percentual  chocante, que levou o psicólogo StanleyMilgram a concluir: “ pessoas comuns, ao fazerem seu trabalho, sem qualquer intenção pessoal, podem se tornar agentes de processos destrutivos. Além disso, mesmo quando os efeitos prejudiciais de seu trabalho se tornam claros , ainda assim eles continuam, independente de seus valores, moral e consciência, pelo simples fato de que estão recebendo uma ordem, portanto a responsabilidade não lhe pertence”.

 

A autoridade, dentro no nosso contexto social, é representada de diferentes formas, em vários ambientes: na família ela vem de nossos pais, na escola ela é representada pelo diretor ou professor, no trabalho a Chefia, etc.

 

A questão não é a existência da autoridade, mas a relação que podemos construir com ela, principalmente nos dias atuais.

 

Assisti ao filme e, ao mesmo tempo em que fiquei chocada, também fiquei incomodada.

 

Entendi que há algo instintivo nas ações passivas e não questionáveis da maioria das pessoas que participaram, mas penso que pode estar ligado à cultura de uma época.

 

Será que, se esse experimento fosse hoje, teríamos o mesmo resultado?

 

A minha geração e a dos meus pais, mesmo tendo passado por períodos de reivindicações sociais e políticas ao longo do tempo, ainda tem enraizado certo temor respeitoso com esse processo, diferente das novas gerações que quebraram essa barreira hierárquica, propondo uma parceria, um compartilhamento, a troca de ideias e de modos de pensar, que muitas vezes é exercido, ou percebido de forma intransigente e equivocada, mas na verdade está repleto de ousadia, inovação, representando uma quebra de paradigma no que tange às novas relações de convivência, substituindo um perfil de obediência inquestionável, do tipo: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

 

Não sei se estou certa na maneira de perceber a questão, mas acho que o centro de tudo isso é a mudança que temos percebido com as novas gerações e como convivemos com elas, com seus impactos e modelos.

 

Não podemos mais manter o mesmo discurso, utilizando as mesmas ferramentas, temos que nos reinventar diante de um novo mercado, de um novo chefe, de uma nova empresa, de uma nova meta, de uma nova família, de um novo “EU”.

 

Estamos vivendo um período de adaptação, com excessos de todos os lados, em busca de um ponto de equilíbrio.

 

Para refletirmos, gostaria de finalizar esta coluna compartilhando uma frase do pensador  Soren Kierkegaard, citada no filme que comentei acima: “A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.”


Coluna de Cris Nogueira