O sorriso vem de brinde

Conhecida por vender pipoca no Centro de Joinville, dona Margarida transmite simpatia e bom humor a quem encontra

Por Karollayne Rosa 05/07/2017 - 17:57 hs
Foto: Jacson Carvalho

Desde o dia em que dona Margarida firmou o ponto do carrinho de pipoca naquele local, a experiência de transitar na esquina da rua João Colin com a Quinze de Novembro ganhou um perfume diferente.

Mesmo à luz do dia, com a rua lotada de veículos exalando poluentes, ao passar por ali, seja a pé, de bicicleta ou de carro é possível reconhecer o inconfundível aroma que sai das panelas de alumínio. “Esse cheirinho e a simpatia da dona Margarida, não tem como não parar e comprar uma pipoquinha”, revela a professora Rosangela Prado, cliente fiel “desde o início”, conforme ela mesma recorda.

Há até aqueles que se arriscam saltando do veículo, no intervalo entre o sinal vermelho e o verde, e correm até o carrinho de dona Margarida. Para esses, ela já faz questão de deixar alguns pacotinhos de papel pardo prontos para poupar o tempo do cliente.

“Doce? Salgada? Meio a meio? Qual vai primeiro, a doce ou a salgada?” são algumas das frases repetidamente ditas pela mulher de 52 anos, que há três estaciona o carrinho naquela mesma esquina. Assim como quem o prepara, uma parte dos apreciadores do aperitivo à base de milho não são de Joinville e sequer moram na cidade. “Aparece gente de São Paulo e de outros lugares aqui também. O pessoal que se hospeda no Ibis, aqui perto, vem comprar direto”, conta.

Em vinte minutos, mesmo com a chuva repentina que começou a cair, o movimento no carrinho continuava. “No verão é meio ruim, mas o inverno vende melhor.” Enquanto roda o misturador da pipoqueira, distribui sorrisos por quem transita no local, independente de ser um rosto já conhecido. Ela adora conhecer gente nova e fazer amizades. 

Adultos com uniforme de trabalho, crianças recém saídas da aula, adolescentes com mochila do colégio, moradores de rua. O perfil dos consumidores costuma ser bem variado. Nos dias de chuva, dona Margarida faz questão de embalar bem os saquinhos de pipoca para não molhar o produto e acabar comprometendo o sabor - tão cativante quanto o aroma - e a experiência do cliente. Cliente esse que sempre tem razão quando o assunto é pechincha.

Tão comum quanto a dona Margarida ouvir um “faz duas por cinco?” é a resposta dada por ela. “Faaaaço”, responde sorridente, puxando a letra “a” em tom de concordância. E se alguém aparece sem muito dinheiro, pedindo um bom desconto na compra, ela também não hesita em ajudar. De produto, a pipoca de Dona Margarida passa a ser quase um abraço. É o efeito que a vendedora de pipoca causa, naturalmente, em quem encontra pelo caminho.

Cotidiano

Pega ônibus na rua perto de casa, vai até o terminal do Itaum, pega ônibus para o Centro e busca o carrinho de pipoca em uma sala alugada. Leva-o até a famosa esquina, onde permanece até o início da noite. “Tem dias que eu chego meia-noite em casa”, conta.

A motivação de dona Margarida em deixar a cidade natal para vir a Joinville é semelhante a de muitas pessoas que hoje moram aqui e migraram em busca de oportunidade. Natural de Faxinal – município com pouco mais de 16 mil habitantes, localizada no interior do Paraná – Margarida Klouck resolveu tentar a sorte na cidade catarinense no início dos anos 2000.

Depois de passar 40 anos da vida dedicando-se ao trabalho na roça, uma seca destruiu a plantação que tinha, fazendo a família perder tudo. Migrou com o marido e mais sete filhos. 

Hoje, divorciada e vivendo com as filhas de 10 e 15 anos - porque os outros cinco já são casados -, conta que, antes de assumir a pipoqueira, trabalhou em chácara, parque aquático, hotel e na produção. A rotina era puxada e o descanso, um luxo. Quase não dormia. Durante o dia, trabalhava em um hotel. À noite, era operária em uma empresa que produzia paletes e estrado de madeira.

Permaneceu assim por algum tempo. A decisão em deixar o trabalho de operária e tentar algo autônomo surgiu da necessidade em dar assistência a uma das filhas, portadora de deficiência auditiva. “Eu levava ela no Centrinho e sempre chegava atrasada nas consultas. Como trabalhava direto, não dava tempo de chegar no horário”, explica.

Durante os cinco anos que trabalhou na rua, conta que já viu e ouviu de tudo.  Briga de casal, desentendimento no trânsito e, inclusive, xingamentos. Mas nada que a abale. “Entra por um ouvido e sai pelo outro.”

Acho que te conheço! 

Enquanto caminhava, sentia que era observada de longe. O desconhecido estava com os olhos cerrados, tal como alguém em busca de uma recordação guardada em algum lugar da memória.

Em poucos segundos, o franzido da testa do observador deu lugar a um sorriso. “Ah, mas eu conheço a senhora…”, exclamou a voz ao passar por dona Margarida. Quando está fora do trabalho, em seus dias de descanso, ela conta que costuma ser reconhecida na rua. “Mesmo sem touca e avental eles lembram de mim”, diz.

Antes de estar onde pode ser encontrada hoje, dona Margarida conta que já esteve em outros lugares, como em frente à Passebus e na popular travessa Bachmann. De vez em quando, encontra algum antigo cliente que perdeu o contato em função das mudanças.

“Essa é a parte ruim, né?!. Quando muda o carrinho de lugar, às vezes a gente nunca mais acha a pessoa”, lamenta. Ao longo dos cinco anos de trabalho vendendo pipoca, entre uma venda e outra, conquistou muito colegas e um grande amigo para a vida conforme conta. 

Humildade, amor ao próximo - independente de quem ele ou ela seja -, solidariedade e simpatia por quem quer que encontre são qualidades que fazem parte de dona Margarida, mas que, segundo ela, não aprendeu sozinha. “O segredo é ter Jesus no coração”, afirma de maneira enfática. 

Boa parte dos que se aproximam do carrinho não estão ali pela primeira vez. O saquinho de pipoca no fim do expediente, ou logo depois do almoço, passa a ser um ritual para os clientes mais assíduos. Talvez o segredo seja o caramelo da pipoca que, de tão docinho, torna a rotina de quem o consome um pouco mais palatável.