Muito além do mérito

O debate sobre mobilidade social tem se tornado cada vez mais popular no Brasil nos últimos anos e o termo meritocracia, em especial, vem ganhando cada vez mais admiradores

Por André Lux 18/07/2017 - 17:42 hs

Quando a palavra meritocracia fez sua primeira aparição registrada, em 1956, ela foi utilizada como uma forma de abuso, descrevendo um Estado ridiculamente desigual.

Em sua reflexão, o sociólogo Alan Fox questionou qual a lógica em dar mais prêmios aos já prodigiosamente talentosos.

Em vez disso, ele argumentou que o melhor a fazer era pensar em como dar mais tempo de lazer aos que fazem trabalhos difíceis ou pouco atrativos e distribuir a riqueza de forma mais equitativa, para que todos tivessem uma melhor qualidade de vida.

Em 1958, a filósofa Hannah Arendt concordou: "a meritocracia contradiz o princípio da igualdade [...] nada menos do que qualquer outra oligarquia".

Mas em 1972, o sociólogo americano Daniel Bell deu ao conceito um sentido mais positivo quando sugeriu que a meritocracia poderia ser um motor produtivo para a nova "economia do conhecimento".

Na década de 1980, a palavra já estava sendo usada de forma positiva por uma série de novos pensadores para descrever suas versões de um mundo com extremas diferenças de renda e alta mobilidade social. A palavra meritocracia tinha conquistado um novo significado.

Hoje, ela é tida, no nível ideológico, como um conjunto de valores que postula que as posições dos indivíduos na sociedade devem ser consequência do mérito de cada um.

É, portanto, um conjunto de valores que ignora toda e qualquer forma de privilégio hereditário e corporativo e que avalia, valoriza e recompensa – ou não - as pessoas sem considerar suas trajetórias e biografias sociais. A meritocracia, como é empregada hoje na sociedade, não atribui importância a variáveis como origem, posição social e econômica do indivíduo no momento em que este pleiteia ou compete por um direito ou uma posição social superior.

Em 2014, dois economistas publicaram um extenso estudo, onde compararam a evolução da renda com dados de educação, estrutura familiar e cor de pele de pessoas de diferentes classes sociais.

Eles observaram que desvantagens sociais tendem a se manter de uma geração para a outra, com lento avanço no tempo.

Um exemplo: mesmo que um indivíduo de origem pobre termine a faculdade, ele tem quase as mesmas chances de sucesso e de fracasso que um jovem rico que sequer terminou o ensino médio.

As descobertas indicam que há uma série de fatores que limitam a mobilidade social e que alguns grupos são mais vulneráveis à carência de oportunidades sociais.

Os recortes mostram como as possibilidades são diferentes para pretos e brancos, por exemplo, e como os ricos são menos afetados pela baixa escolaridade em comparação aos pobres.

Quanto mais pobre é o indivíduo à época de seu nascimento, maior é a chance dele chegar aos 40 anos na mesma classe social.

Estamos acostumados a ver e ouvir lindas histórias de superação, onde o sujeito vence todas as dificuldades e obstáculos de sua vida para se tornar alguém de prestígio social e profissional.

Estas histórias parecem confirmar que o esforço é o que basta para se alcançar ascensão social. Esquece-se, porém, que estas histórias, dentro das estatísticas, são as exceções.

E que para cada indivíduo pobre, negro e de periferia que consegue ascender socialmente, existem outros milhares que não conseguiram – e muitas das vezes, não por falta de esforço.

O conceito de meritocracia torna-se perigoso exatamente por colocar todos os participantes da corrida no mesmo ponto de largada e ignorar, por exemplo, os prejuízos que pessoas que nasceram em lares pobres e sem nenhuma estrutura familiar possuem em seu processo de formação; ou as dificuldades diárias que só moradores de periferias precisam lidar; ou a distinção de qualidade nos ensinos público e particular; ou que as mulheres recebem menos do que os homens e têm menos oportunidades para galgar cargos nas empresas; ou que os negros foram historicamente discriminados e ainda hoje lutam para superar anos de desvantagem em seu desenvolvimento social; ou tantas outras variáveis existentes na sociedade que colocam, fatalmente, alguns dos competidores muito atrás dos outros antes mesmo que a corrida comece, apenas por terem nascido na família em que nasceram.