Como lidar com o sentimento de perda?

Para o psicólogo, João Alexandre Borba, o luto precisa ser vivido e chorar e sentir-se triste pelo acontecimento é mais do que saudável

Por Redação Jornal Metas/Adjori 01/11/2017 - 12:13 hs

Há muitos anos, Antônio Cezar Scottini, 49, anos, toma o mesmo caminho nesta época: o cemitério municipal de Gaspar, no bairro Santa Terezinha.

Ele acompanha a sua mãe na limpeza do túmulo do filho, José Scottini, que faleceu antes de completar 5 anos de idade.

Mesmo 45 anos depois da morte, Antônio ainda percebe no olhar da mãe sofrimento pela perda. Não muito longe dali, Artur Sálvio Spengler, 58 anos, armado de vassoura, balde, água, sabão e cloro, limpava o túmulo de seus pais, João e Gertrudes Spengler, debaixo de uma chuva fina que insistia em cair na manhã de sexta-feira (30).

"Lavo os túmulos não apenas perto do Dia de Finados, mas sempre que o tempo está firme, se tivesse que esperar parar de chover não viria nunca", comentou Artur.

As duas situações ilustram bem o sentimento que acompanha as pessoas diante da morte de alguém que é muito querido.

Limpar e ajeitar o túmulo pode ser um gesto para que jamais se quebre o vínculo entre quem partiu e quem ainda está por aqui.

Mas, afinal, quais sentimentos afloram diante da morte? Dor? Tristeza? Saudades? Ou todos eles reunidos numa só palavra? Perda.

Este é um sentimento que a pessoa, em algum momento da vida, experimenta, pois todos se deparam com a morte de um ente querido e, por fim, com a sua própria morte. Essa é a única certeza. Só não sabemos quando ela vai chegar.


Talvez pelo fato da morte ser algo inesperado e inaceitável, a possibilidade da perda não costuma ser assim tão "amigável" na consciência das pessoas. O mais comum é o despreparo diante da morte. Para o psicólogo João Alexandre Borba, o luto precisa ser vivido.

"Ao perder alguém, é mais do que saudável chorar e sentir-se triste pelo acontecimento. A pessoa que sofre uma perda precisa passar certo tempo sofrendo, é natural", argumenta.

Para muitos, a dor da perda pode levar meses, anos ou nunca mais passar. Isto depende da forma como as pessoas se relacionavam, ou seja, o grau de envolvimento. Quanto mais próximos, mais difícil é se acostumar à perda. 


Nos olhos e no falar da costureira Janaina Frena Cypriano, 27 anos, já se percebe o tamanho da perda da avó, Luzia Frena.

A dedicada senhora faleceu há três meses, aos 84 anos, devido a problemas cardíacos. Janaína, que tinha a avó como uma mãe - afinal foi ela que a criou - ainda tenta se acostumar com a ideia da morte. 

IMG_janaina-e-vovo.jpg Janaina com sua amada avó a quem tinha como mãe

"Quando recebi a notícia de que minha avó havia falecido foi muito difícil. Pensei até mesmo em me mudar de Gaspar, pois tudo na cidade me lembrava ela", emociona-se.

Os dias passaram e Janaína, aos poucos, foi retomando sua vida.

"Precisei ser muito forte e acredito que quem permanece neste plano vai sofrer por algum tempo até superar o luto. Hoje acredito que a minha avó está num lugar bem melhor e tento me apegar ao legado que ela deixou, porém, sempre vou sentir saudades dela", admite.

E saudades é, de fato, o sentimento que vai permanecer para sempre nas pessoas.

Antes, porém, o psicólogo explica que as pessoas passam por outras fases, como a da negação, quando nos recusamos a acreditar no que aconteceu.

Depois, vem a fase da raiva de tudo e de todos, é quando ficamos de "mal com o mundo". "Um momento importante para ganharmos energia a fim de superar o acontecido", argumenta o psicólogo.

Logo depois vem a fase da negociação, quando "negociamos" a despedida.

"Frases como "perdi essa pessoa, mas a vida segue" ou "a pessoa ia ficar feliz se me visse prosperando", são comuns nessa fase", afirma o especialista. 


Só após superar todas essas fases é que, segundo Borba, vem a tristeza real e legítima. "É quando cai a ficha.

Nessa hora, o sentimento de dor é maduro e não de desespero. Porém, para chegar e superar esse estado de espírito, é preciso passar por todos os anteriores", ressalta o psicólogo.

E aí o que permanecerá são as saudades.

 

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As saudades permanecerão para sempre

Passada a tristeza é o momento de recomeçar, se reerguer e voltar à vida por inteiro - e não aos trancos e barrancos.

É a hora de fazer as coisas voltarem aos trilhos. "Acho que o Dia de Finados é uma oportunidade de as pessoas pensarem se realmente se despediram daqueles que se foram ou ainda deixam com que o sentimento de dor tome conta das suas vidas", afirma Borba. 


O psicólogo lembra que as saudades permanecerão para sempre, mas devem coexistir com uma sensação de "leve tristeza", e não de arrebatamento.

"Se as saudades aparecerem de um jeito avassalador é porque muito provavelmente o ciclo do luto não se fechou. Aproveite o Dia de Finados para fazer essa reflexão: fechar o ciclo do luto e honrar a pessoa que se foi com amor, boas lembranças e emoções positivas", conclui. 

O Dia de Finados - uma data do calendário religioso dos Católicos, introduzido no século XIII da Era Cristã - é um momento de homenagens, lembranças, de muitas emoções e também de reflexão.

Assim será novamente nesta segunda-feira (2), para muitas famílias. Rosi Mari Trêss, 58 anos, faz até mais neste dia de recordações, pois ela não se preocupa apenas com o túmulo dos seus pais.

Ela e a sobrinha, Ângela Teresinha da Silva, de 55 anos, procuravam túmulos que estavam sem flores e lá depositavam a homenagem.

"Nós fizemos algumas doações, uma forma de homenagear todos que estão sepultadas aqui. Acredito que cada um tem a sua hora de partir desse mundo", opina Rosi. 

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Osmar Schneider, 66 anos, juntamente com sua esposa Dolores Schneider, 61 anos, foram até o cemitério depositar flores no túmulo do seus pais Laudelino e Amália Schneider, e da irmã que morreu no dia 21 de abril deste ano.

"Nós somos obrigados a aceitar e entender a perda, só não podemos esquecer essas pessoas. Cuidar do local onde elas foram sepultadas acredito que é um sinal de respeito à memória das pessoas que já partiram", justifica Osmar.