Descubra se você sofre da Síndrome de Noé

O tratamento não é fácil, pois além de não perceberem que estão doente, as pessoas com a síndrome têm a certeza de estarem fazendo somente o bem

Por Ana Piercing 24/08/2017 - 16:52 hs
Descubra se você sofre da Síndrome de Noé
Nessas casas, é possível encontrar animais em qualquer lugar: no quintal, no quarto, na garagem...

Muitos não conhecem nem ouviram falar na Síndrome de Noé. É dado este nome para pessoas que sofrem a doença de acumular animais em sua casa, também conhecidas como acumuladores.

 

É possível encontrar acumulares de objetos, animais e ainda, muitas vezes, dos dois.

 

Pessoas que têm muita ansiedade, medo de perda ou tiveram um choque muito grande em relação à perda de bens ou pessoas costumam sofrer dessa doença.

 

Mas essa acumulação não vem para melhorar vida de nenhum dos lados. Pelo contrário, tende a diminuir condições de saúde e higiene, tanto do animal quanto do ser humano que mantém esse hábito.

 

Pessoas com esse distúrbio recolhem abusivamente animais, acumulam dezenas e centenas, mas não conseguem dar uma vida digna a cada um deles.

 

O que é a Síndrome de Noé?


A Síndrome de Noé nada mais é do que acumulo excessivo de animais. Pode ser moderado ou grave.

 

Como já visto em reportagens, algumas destas pessoas colocam todos os animais de estimação para dentro de casa.

 

Já foram registrados casos em que a pessoa mantinha mais de 50 gatos presos em um quarto e dezenas de cães que tomam conta da casa toda.

 

Não dando conta de manter a higiene do local, o acumulador vai sobrevivendo ao meio e não percebendo a gravidade.

 

Nessas casas, é possível encontrar animais em qualquer lugar. No quintal, no quarto, na garagem, no banheiro e até mesmo dentro de uma sapateira caída no chão, como eu mesma já presenciei.

 

Os sintomas


A falta de organização é o primeiro sinal deste distúrbio. Na adolescência parece algo normal, mas, ao envelhecer, a pessoa começa a recolher tudo que vê mesmo sem necessidade ou espaço para tal.

 

Com o passar dos anos isso vai se agravando, pois é comum que o medo da solidão venha junto.

 

Os sinais e sintomas podem incluir:

 

- Incapacidade permanente de desapegar-se de qualquer coisa, independentemente do valor, pois sempre acham que amanha vão precisa;

 

- Apego excessivo às posses, incluindo mal-estar excessivo quando alguém toca ou brinca com os animais. Não doam por achar que não vão cuidar bem, que vão largar na rua, por acharem que ali naquele sofrimento eles estão melhores;

 

- Espaços desordenados, tornando inutilizáveis áreas da casa para a finalidade pretendida. Pode chegar ao ponto de não serem capazes de cozinhar na cozinha ou de usarem o banheiro para tomar banho;

 

- Interações sociais limitadas ou inexistentes. As pessoas julgam e descriminam algo que não conhecem, tratando como loucura e indiferença em vez de ajudar. Pessoas assim normalmente perderam a sua família e são carentes de alguém que as escute;

 

- Essas pessoas começam a acumular animais por achar também que trará algum valor futuro e porque os animais, de certa forma, as fazem lembrar-se de tempos felizes;

 

Mais comum do que imaginamos


Por estar no meio da causa animal, conheço seis acumuladoras comprovadas e muitas ainda não diagnosticadas, pois ainda proporcionam uma vida melhor a todos que recolhe.

 

Meu tio é acumulador de objetos. Desde que a minha avó morreu ele foi morar sozinho e começou a trazer para casa tudo que encontrava na rua, pensando que um dia poderia precisar usar.

 

Hoje ele mora em um quarto que tem objetos acumulados ao longo do tempo até o teto.

 

Ele chegou ao ponto de tirar a sua cama para abrir mais lugar e hoje dorme sentado. Ao ameaçar tirar seus pertences, ele se revolta, briga, não entende o porquê de não querermos deixar como ele gosta.

 

Também tenho muito contato com uma acumuladora de ambos, objetos e animais, pois mora em um lugar de desova, onde muitas pessoas com boas condições de vida largam seu problema para outras pessoas.

 

Ela tem seu quintal cheio de ferros, armários, tudo que se pode imaginar tem empilhado.

 

Dentro de sua casa há roupas até o teto, de modo que não há nada que possa ser identificado por causa da bagunça.

 

Dentro da casa não se vê nem as paredes, pois todas estão cobertas do chão até o teto de roupas e sapatos.

 

Quando a conheci, os animais ficavam presos em corda de 30 centímetros e em casinhas com uma crosta de sujeira no fundo.

 

Eles mal tinham água e comida nos potes e viviam em meio à lama. Ao todo, havia 37 animais presos, além de muitos gatos dentro de casa.

 

Há dois anos estamos cuidamos e tentando, por meio de mutirões, arrecadar verba para melhorar a parte dos animais.

 

Hoje o local tem dois canis com telhado e dez baias de cimento, tudo com piso de concreto.  Os animais são castrados, vacinados e os sustentamos com ração doada pela sociedade.

 

Também conseguimos colocar todos para adoção. Nesses dois anos que estamos ali, já passaram mais de 200 animais e todos eles foram tratados e adotados.

 

Mas o número de abandono é bem maior que a quantidade de lares que conseguimos para cada um. Isso acaba aumentando muito rápido o número de animais que ela resgata.

 

Mesmo em tratamento, tem meses que notamos que ela não consegue se controlar e acaba pegando cinco de uma só vez.  É possível que seja algo ligado a questões emocionais.

 

Uma senhora que foi rejeitada pela família por ter sido dependente química hoje luta contra isso. Vai à igreja com seu marido todo domingo.

 

Em um dia ela sonha em falar outras línguas e sair pelo mundo pregando. No outro, diz que quer abrir um brechó. E no outro diz quer soltar a cachorrada toda porque não aguenta mais.

 

Mas seu coração e sua doença falam mais alto e ela acaba pegando mais animais.

 

O tratamento


Infelizmente, o tratamento destas pessoas não é fácil. Pois além de não perceberem que estão doentes, elas têm a certeza de estarem fazendo somente o bem.

 

A tendência de alguns ainda é colocar esses animais em jaulas ou amarrados em pequenas cordas e ali vivem confinados até a sua morte, o que seria caso de maus tratos passivo, tema que comentei na coluna anterior.

 

Ainda não foi encontrada a causa real desta síndrome. Não se sabe se é genético, algo que ocorre no cérebro ou se é desenvolvida a partir de algum outro aspecto social.

 

Mas é possível que as pessoas não carreguem isso desde que nascem. A maioria desenvolve depois de certa idade.

 

Um transtorno lento e invisível


Esse é um problema espalhado por toda a cidade, mas que o poder público prefere se cegar.

 

Em Curitiba, por exemplo, foi feito um levantamento de todos os acumuladores para que eles possam receber auxilio e tratamento, tanto para os humanos quanto para os animais.

 

A identificação é realizada por meio de denúncias feitas pelo telefone 156 e pela rede de proteção animal.

 

Mas, infelizmente, é a única cidade do país que teve essa preocupação segundo uma matéria feita pelo jornal A Gazeta do Povo.

 

“É uma doença que se caracteriza pela perda, em que a pessoa se marginaliza e até projeta a personalidade nos animais”, diz Alexander Biondo, diretor do departamento de pesquisa e conservação da fauna da secretaria municipal do meio ambiente.

 

Um acumulador não é diagnosticado pelo número de animais em casa, mas sim pela saúde mental, o comportamento diário, a compulsividade e a dificuldade em colocar um animal para adoção, sempre proporcionando empecilhos. Grande parte de acumuladores têm essa doença em razão de uma dor muito grande de perda na sua vida.

 

Mas antes de chegar a tal diagnóstico, a situação é analisada por biólogos, veterinários e psicólogos.

 

Mas é preciso estar atento, pois a doença é lenta e silenciosa. Familiares só percebem quando chegam ao limite. Geralmente quem sofre da doença começa a não querer receber visitas em casa por medo que os animais, ou objetos, sejam recolhidos.

 

Caso você conheça alguém que sofre desta síndrome, converse com um psiquiatra o mais rápido. Por mais difícil que seja denunciar um acumulador, procure as autoridades, bombeiros, proteção animal para que de alguma forma eles sejam encaminhados para tratamento. Quanto mais cedo isso for diagnosticado, mais chances  de levar uma vida saudável essa pessoa vai ter.

 

E você ainda estará salvando a vida de ambos.