Vamos comungar, Vamos Omungar!

Não podemos jogar certas responsabilidades apenas no colo dos oficiais

Por Cris Nogueira 23/03/2018 - 08:30 hs

Omunga é uma expressão do dialeto africano, que significa união, unidade, conjunto, e se transformou em uma palavra de bem comum, devendo, por isso, ser eleita como verbo, para que possamos conjugar: eu omungo, tu omungas, ele omunga, nós omungamos, vós omungais, eles omungam.

E quem disse que não é? Afinal, verbo significa palavra, em latim, e designa situação, ação ou mudança de estado. Assim sendo, existe melhor significado para o propósito da Omunga?

Na verdade, Omunga é tudo isso e muito mais…

Omunga é uma instituição de Joinville, sem fins lucrativos, que tem seu foco na educação e capacitação de professores nos lugares mais distantes, onde ninguém vai, seja pela distância, pela pobreza extrema ou pela violência.

Meu objetivo na coluna de hoje não é apenas apresentar a Omunga para aqueles que não a conhecem, mas valorizar o movimento que ela representa, ou seja, da transformação que as novas gerações estão fazendo na sociedade, mudando os valores e, consequentemente, os objetivos. No meu entender, uma proposta de salvação do mundo.

Todos sabemos que a mudança para melhor no perfil de uma sociedade está diretamente ligada à transformação de seus valores, a priorizar mais o ser do que o ter e, se tiver que ter, que seja com o propósito de melhorar a própria vida e a do próximo, o que abrange um olhar globalizado, socialmente falando.

Assim como o mercado brasileiro se altera por reflexos do que ocorre nos mercados europeu e americano, por efeito dominó da globalização, não seria diferente no tocante aos aspectos sociais. A guerra na Síria e a crise na Venezuela, por exemplo, trouxeram um aumento no nosso gargalo socioeconômico, mas o que fazer? Jogar gente no lixo, fechando os olhos, apenas porque o problema não é nosso? Difícil essa situação, né?! Não é fácil olhar para o lado, quando nossos problemas também não são poucos, mas é um exercício humanitário, necessário.

Se a soberba de um país, em qualquer lugar do mundo, confrontar-se com a loucura de outro, e eles resolverem disputar, como duas crianças num jogo de bola de gude (peca), quem tem o maior arsenal nuclear e qual deles será o primeiro a atacar, quantas pessoas estarão na mesma situação dos sírios e venezuelanos?

O mundo está no nosso quintal, gostemos ou não!

Quando assisti a uma palestra sobre a Omunga e soube que o foco era educação, refleti: “Deve ter gente pensando que isso é um problema público, que a obrigação em oferecer saúde, educação e moradia é do governo, seja municipal, estadual ou federal”. Então, comecei a analisar o que vivemos hoje e que está inserido no caos social.

Nos últimos anos, devido à crise econômica, muitos chefes de família − pais e mães − perderam seus empregos, diminuíram suas rendas, e isso provocou o corte de gastos, desde o lazer até o plano de saúde e a escola dos filhos, bem como no não pagamento de alguns boletos e impostos. Esse efeito em cadeia aumentou a demanda por escolas e postos de saúde públicos. Todavia, como erguer escolas e unidades de saúde, contratar professores, médicos e demais profissionais em tão pouco tempo, sendo pressionado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, pela sociedade, pelo orçamento, burocracia, entre outras exigências? Simplesmente “a conta não fecha”. Às vezes, ela não fecha por conta da corrupção, e foi exatamente por conta dessa corrupção que a transparência e a coerência tornaram-se os valores mais cobrados atualmente. O Rio de Janeiro que o diga!

O que estou tentando dizer é que não dá para esperar que o Governo resolva tudo! Não dá para não ajudar! Também não precisa ser somente com coisas materiais, pois podemos compartilhar nosso talento, nossa competência, nossa humanidade, nossa compaixão, aumentando nossa empatia e reavaliando alguns valores. De fato, os problemas sociais devem ser resolvidos ou amenizados por todos nós. Não podemos somente “jogar no colo dos responsáveis legais”, porque eles não conseguem fazer mais sem a nossa ajuda. E tem que ser agora, com urgência, visto que a demanda é maior do que a mão que oferece!

Se alguém tem sede, e a torneira está próxima, que seja eu a ofertar!

Lembro ainda que a palavra gratidão tem sido usada e disseminada com muita intensidade entre as pessoas, por meio das relações interpessoais, em postagens na rede social e em ambientes corporativos. No entanto, estimular a gratidão não é apenas agradecer pelo que temos (saúde, família ou bens). É também estimular o olhar para o próximo, entender que somos pessoas privilegiadas e que, mesmo passando por dificuldades, podemos oferecer algo de nosso − até mesmo uma simples oportunidade −, àqueles que nem sequer têm quem os oriente, incentive e ajude. Mais do que tudo isso, podemos auxiliá-los a resgatar a dignidade, a autoconfiança e a própria cidadania.

Termino esta coluna com um trecho da música “É Demais Pra Mim” de Cláudio Cartier e Marco Aurélio, eternizada na linda voz de Emílio Santiago:

 “Um pouco de você, pode acreditar, é demais pra mim”