Pernas pro ar

Por Prisco Paraiso 25/02/2020 - 11:26 hs

Em termos de análise política é possível afirmar que o ano de 2018, que entrou para a história como uma ruptura parcial do eleitorado com nomes e partidos tradicionais, ainda não terminou.

Este 2020 começou com o universo político catarinense literalmente de pernas pro ar, ainda no vácuo do surpreendente resultado eleitoral. O governador do estado, um ilustre desconhecido até a campanha daquele ano interminável, conquistou a cadeira mais importante de Santa Catarina filiado ao PSL e absolutamente sintonizado com a onda Bolsonaro. Há fotos de Moisés da Silva fazendo “arminha”, por exemplo, e por aí vai. O eleitorado catarinense votou naquilo que parecia uma chapa de direita.

Pois muito bem. Pouco mais de um ano depois, Moisés afastou-se, ao que tudo indica, intencionalmente de Jair Bolsonaro, mas, sobretudo, viu pesselistas que pediram votos a ele durante a campanha migrarem para a oposição. São quatro deputados estaduais que também apareceram para a política em 2018 que não querem saber de papo com o governador. Sem contar os três federais. E vice-versa, pois o atual inquilino d’Agronômica também não quer nem ouvir falar da turma. O clima é péssimo. Moisés da Silva acusa os ainda correligionários e ex-amigos de extremistas. E os parlamentares e seus aliados acusam o chefe do Executivo de traição.

 

Abismo

O governador de Santa Catarina não só abriu distância do presidente e levou pesselistas à oposição. Ele namorou todo o 2019 com o MDB, partido mais tradicional – e um dos mais envelhecidos e desgastados – de Santa Catarina e do Brasil. O mandatário chegou a convidar um deputado do partido para assumir a liderança governista na Alesc.

 

Trabalhismo

Como os cardeais emedebistas brecaram a operação, Moisés da Silva foi além. Escalou para sua líder no Parlamento uma deputada do PDT, com 28 anos de militância no trabalhismo brizolista e atuações em cargos no Ministério do Trabalho nos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT!

 

Geleia geral

O cenário é tão instável e volátil que, no mesmo dia em que a pedetista Ana Paula da Silva foi investida, de fato, na condição de líder na Alesc, o ex-ocupante do posto, Maurício Eskudlark, do PL, subiu à tribuna para criticar o governador e o governo que ele defendia até o dia anterior!

 

Meu partido

O governador agora está construindo um PSL “à sua feição”, atraindo prefeitos e mais adiante, deputados, dos mais variados partidos. Lideranças com mandato, realidade que praticamente enterra aquilo que se convencionou chamar de “nova política”. Nomes e partidos realmente estão mudando. Mas em Santa Catarina, o governador-novidade vai envelhecendo e se descaracterizando rapidamente na seara política.

 

Pé atrás

No segmento administrativo, Moisés também gerou polêmica e estupefação ao investir sobre o setor produtivo a bordo da ideia de majorar impostos sobre os defensivos agrícolas, criando o tal imposto verde. Uma pauta esquerdista por excelência. Ele foi obrigado a recuar, mas a desconfiança entre o empresariado ainda é generalizada.

 

Aperitivo

O pleito municipal deste ano pode dar sinais de onde desaguará este cenário confuso e absolutamente instável lá em 2022, quando será possível mensurar pra valer quem está acertando e quem está errando nos movimentos do tabuleiro local.

 

Aliançados

Enquanto isso, os deputados rifados pelo PSL preparam-se para construir o Aliança em Santa Catarina, seguindo no diapasão político, ideológico e administrativo do presidente da República. Paralelamente, nomes tradicionais vão tentando se ajeitar neste contexto. Uns apostando no embate direto já nas eleições municipais (caso de Paulo Bauer). Outros, articulando para a criação de novos espaços eleitorais com vistas à corrida eleitoral de 2022 (como Raimundo Colombo).