Após acidente e amputação, sonho de bombeiro voluntário é poder voltar a salvar vidas

Para custear uma prótese de perna reforçada, esposa cria vaquinha on-line. O modelo, que custa R$ 50 mil, permite atividades mais complexas como, por exemplo, as desempenhadas pelos bombeiros

Por Fernanda Eliza 25/10/2018 - 17:29 hs
Foto: Arquivo Pessoal

“Você sai de casa para trabalhar e, de repente, um ônibus entra na sua frente e muda tudo”. Foram 11 anos de trabalho dedicados ao Bombeiros Voluntários de Araquari, até que no dia 4 de setembro de 2017, Gilmar Menegaro,43 anos, teve sua vida mudada completamente. Hoje, ele conta com a solidariedade de amigos e da população em geral para comprar uma prótese para a perna esquerda e poder voltar a atuar como bombeiro e salvar vidas.

Gilmar começou nos bombeiros por acaso. Na época, trabalhava em uma funerária e um dia, enquanto conversava com um amigo, também bombeiro, notou seu colete guardado dentro do carro, sempre a postos, e então comentou que sentia vontade de atuar como voluntário. Não demorou mais do que um dia para que Gilmar conseguisse contato com o responsável pela equipe e começasse a servir a população como motorista do caminhão do corpo de bombeiros.

Até o ano passado, Gilmar era quase que um Severino, não só dirigia, mas atuava nos salvamentos e era chefe de equipe. Nesses 11 anos de serviços, Gilmar conta que “não há nada que pague salvar uma vida.”

Além do voluntariado, para ganhar seu salário e viver com dignidade, ele trabalhava em uma empresa de segurança privada e alarmes. Gilmar fazia rondas de motocicleta todos os dias pelo bairro Costa e Silva, sua função era verificar a segurança de espaços públicos e de poder do município, como CEIs, escolas municipais e postos de saúde, por exemplo.

Em mais um dia qualquer de trabalho, durante sua ronda matinal, Gilmar sofreu um acidente grave, este que mudou sua vida de um ano para cá. Foi às 6h15, na rua Inambú, esquina com a rua Valmor Harger. Um ônibus cortou a frente de bombeiro, acertou a moto e Gilmar bateu contra o canteiro de uma loja. Em vídeo registrado por câmeras de segurança é possível ver que, com o impacto, o capacete do bombeiro voa para o lado contrário de onde ele acabou sendo jogado. Com sorte, diz Gilmar, seu capacete voou, isso o permitiu de respirar com mais facilidade, já que ele caiu no chão de bruços.


As lembranças daquele dia e dos próximos que ficou no hospital são poucas. Ele conta que, enquanto estava caído, uma mulher veio ajudá-lo, mas ele preferiu esperar ajuda médica, já que conseguia respirar e, se virasse o corpo, poderia causar mais dores e comprometer ainda mais seu estado. Durante o transporte, a esposa e também bombeira voluntária, Vanessa Menegaro, 29 anos, conta que os relatos dos socorristas é de que Gilmar estava falante e até pedia coca-cola com limão para beber, mas ele não se lembra de nada disso. No hospital, ele conversava com Vanessa, mas também não se lembra desses momentos.

O acidente resultou em cinco fraturas na perna esquerda, sendo duas delas expostas, além da face, que tinha quebrado, o que necessitou a colocada de sete placas no rosto. Por conta de um colete, revestido com material semelhante ao metal que se utiliza para fazer calhas para as casas, ele não machucou o tronco e nem os braços. Durante sua estadia no Hospital Municipal São José, o voluntário passou por diversas cirurgias, coma induzido, passou pela UTI e emagreceu 40kg. Os médicos tentaram salvar, manter a perna esquerda de Gilmar, mas por conta de uma infecção, ela teve de ser amputada. Gilmar relata os momentos do acidente e de sua estadia no hospital com os olhos cheios d’água: “se não amputasse, eu morreria”. A amputação, realizada abaixo do joelho, ocorreu no dia 7 de dezembro. No Natal, pôde voltar para casa, recebeu alta médica.

Hoje, há um ano do acidente, o bombeiro voluntário aguarda avaliação para a colocada de uma prótese. Por conta do tempo em que ficou no hospital e em casa sem poder sair da cama, a movimentação do joelho esquerdo se perdeu. Agora, o bombeiro passa por avaliação médica para verificar se há possibilidade de desarticular essa região do corpo. Se isso ocorrer, a prótese deve ser colocada abaixo do joelho. Se esse procedimento não funcionar, Gilmar passa por nova amputação, para que a prótese seja colocada abaixo da coxa.

Todo o tratamento, desde o acidente até o momento, está sendo realizado pelo SUS e a prótese que Gilmar pode receber de forma gratuita, permite apenas que ele possa caminhar e fazer suas atividades em casa, como ir na padaria ou circular na vizinhança. O sonho de Gilmar, porém, vai além de viver para si mesmo, ele quer voltar às suas atividades no corpo de bombeiros e ajudar o próximo. Porém, a prótese do SUS não permite esse tipo de atividade. O valor de uma prótese mais reforçada, que permitiria que ele voltasse a realizar trabalhos mais complexos e, consequentemente, retornar aos bombeiros, custa cerca de R$ 50 mil reais.


Gilmar e Vanessa, casal é voluntário no Corpo de Bombeiros de Araquari (Foto: Arquivo Pessoal)

Para auxiliar nas necessidades do marido, Vanessa pediu demissão do emprego. Além disso, o casal está em processo judicial contra a empresa de ônibus, que, até o momento, não auxiliou Gilmar com nada, apenas pagou o conserto da moto que era da empresa, segundo o bombeiro e vítima do acidente. Diante das dificuldades financeiras e vendo que o sonho do marido não poderia ser alcançado, Vanessa criou uma vaquinha on-line: ”ajude um bombeiro a voltar a salvar vidas”. Gilmar não sabia da ideia da esposa, e foi surpreendido após receber o compartilhamento de sua história nos grupos de WhatsApp. O objetivo da vaquinha, apesar dos gastos com medicamento, é exclusivamente para a compra da prótese, já que o restante do procedimento está sendo custeado pelo SUS.

O leitor que tiver interesse em conhecer um pouco mais da história de Gilmar e saber como ajudar, clique aqui e acesse a vaquinha online.