O silêncio de uma história

Conheça o Jasse: figura icônica do bairro Profipo, na zona sul de Joinville

Por Rafaela França/ Agora Joinville 20/05/2019 - 09:51 hs
Foto: Rafaela França/Agora Joinville
O silêncio de uma história
Jasse, morador do bairro Profipo. Foto: Rafaela França/AJ

Ele não fala muito, mas escuta bem. As únicas palavras que saem da sua boca descrevem com exatidão as coisas que ele mais gosta. Violão, música e carro de som. Em sua cabeça, Jasse está sempre acompanhado de um chapéu, que já virou sua marca e estilo único. No rosto, as cicatrizes do tempo não perdoam. Existem rugas e marcas carregadas de história com seus mais de 40 anos. Mas em sua cabeça, não existe idade. Em termos médicos, pode ser considerado como deficiência intelectual, mas para os que o conhecem, tudo se torna poético. “Ele é uma criança que parou no tempo”, diz Silvana dos Passos Miranda, colaboradora da igreja São Cristóvão, do bairro Profipo, na zona sul de Joinville. Silvana é uma moradora do bairro, entre os mais de 4 mil habitantes, que conhece a figura icônica e simpática do bairro: o Jasse.


Desde os mais novos até os mais velhos, Jasse vai além de uma pessoa comum que circula pelo bairro pequeno de poucas ruas, ele tornou-se um amigo querido por todos. Difícil é encontrar alguém que não o conheça pelas redondezas. “Eu cheguei nesse bairro com 14 anos, hoje tenho 46. Desde então eu vejo ele por aqui”, conta Emerson do Rosário, também morador do bairro. Interagir com o Jasse também não é difícil, porque apesar da deficiência na fala, ele conversa com seus gestos e sorrisos.


De onde veio…

Quando se busca uma história que há muito tempo esteve escondida por trás da personalidade amigável como a de Jasse, é difícil encontrar apenas uma versão. Juliana de Oliveira Rutkowski é dona de um dos bares mais antigos do Profipo, com mais de trinta anos de existência. Ela convive com Jasse há pouco mais de cinco anos, que foi quando assumiu o balcão do Bar do Dorvaci, e conta alguns detalhes sobre a história esquecida de Jasse. “Eu sei que ele tem dois irmãos e a mãe, que moram no bairro vizinho”, diz. Juliana conta que a mãe de Jasse, assim que o filho estava com idade suficiente, o abandonou no bairro. Em contraponto dessa história, Silvana conta que Jasse é morador de rua por escolha própria. “Ele não fica cinco minutos dentro de casa, prefere a liberdade das ruas”, explica. Com tantas versões, fica difícil saber qual é a verdadeira. Para Emerson, toda essa falta de exatidão é uma falta de atenção dessas figuras que circulam em toda cidade. “Cuidar, gostar, é uma coisa… Mas se me perguntar: ‘de onde ele vem?’, eu não sei”, conta. “A gente pensa: ‘ah, tudo bem. Ele tá ali, tá vivo’, nós não nos preocupamos, fechamos os olhos. E é um erro nosso como seres humanos”, ressalta.


A única versão que se repete é que a família de Jasse, composta pela mãe e dois irmãos, moram no bairro KM 4, vizinho do Profipo, mas essa informação não pôde ser confirmada.


A figura de Jasse pode ser vista circulando pelo bairro a qualquer hora. Por ser morador de rua e não ter noção do tempo, Jasse passa as madrugadas pelas ruas do bairro. Um dos pontos principais é a pracinha do Profipo, que durante o dia é contemplado pelas crianças, mas a noite, a violência pode ser muito presente. Foi em uma dessas noites que Jasse foi agredido e drogado. Infelizmente, nada foi feito senão levá-lo no Posto de Saúde do Profipo e cuidar dos seus ferimentos expostos no rosto e corpo. Sem testemunhas e sem voz, os ferimentos mais profundos não tiveram o mesmo cuidado.


Praça do Profipo


Por onde passa, é sempre reconhecido pelos moradores. As crianças brincam com ele, dividem seus doces e se comunicam do jeito que conseguem. A comunidade o ajuda diariamente com alimentos, banhos e roupas. Vez ou outra, Jasse é encontrado na casa de alguém sendo ajudado. Com seu jeito puro, sorridente e sem maldade, pode ser visto brincando na areia da pracinha do bairro ou tirando fotos com sua câmera de brinquedo.


Alecsandro Urbano, bombeiro militar, é mais um dos que fornecendo apoio para o morador de rua virou seu amigo, compartilhando com Jasse a mesma paixão: A música. Alessandro se reúne em sua casa com Jasse e alguns amigos para tocar violão e cantar.


Mesmo com todas as dificuldades que a deficiência sentencia a ele, Jasse tem sua independência. E isso vai além deste único bairro. Não é difícil encontrar vestígios disso. No terminal Vera Cruz, entre os funcionários do lugar, todos, sem exceção, o conhecem. Alguns pelo nome, outros por apelidos como “o moreno de chapéu”, e outros. Isso tudo por Jasse passear pelos bairros e centro, pegando ônibus e conhecendo todas as pessoas. Muitas vezes apenas fica no terminal e brinca com os motoristas de outras linhas, mas sempre em especial a linha que circula no bairro do seu coração: o Profipo. “Ele vai, conhece outros bairros, outras pessoas, mas sempre volta pra cá”, reflete Emerson.


A crescente realidade

Jasse é um dos tantos moradores esquecidos pelas ruas de Joinville. Sem dados oficiais, sabe-se apenas que em 2018, de janeiro a abril, o Centro Pop, que acolhe pessoas em situação de rua, cadastrou novas 880 pessoas. Certamente, outras tantas perambulam pela cidade de quase 600.000 habitantes, mas sem atrair um único olhar de empatia e acolhimento.


Embora obter dados sobre esse assunto não seja tão simples, devido ao fato de ocorrerem muitas mudanças em um curto período de tempo, a falta de atenção dos órgãos públicos da cidade em relação à vulnerabilidade dessas pessoas não pode ser esquecida, pois a falta de dados e informações dificulta também a criação de políticas públicas que poderiam resolver efetivamente o problema e ajudar as inúmeras pessoas que vivem nesta situação.


Jasse, apesar de tudo, pode contar com o apoio de todos aqueles que em um gesto humano e solidário, o acolheram. Ele tem um nome. Uma identidade. Mas, infelizmente, nem todos aqueles que vivem constantemente no perigo das ruas, são vistos como ele.


Reportagem de Rafaela França, Maria Fernanda Benedet e Isabela Johanson.