Famílias do Jardim das Oliveiras de Araquari relatam suas dificuldades após ameaça de desocupação

Por Redação Agora Joinville / Folha Norte SC 20/01/2020 - 09:25 hs
Foto: Lucas Borba

Famílias do bairro Jardim das Oliveiras, em Araquari, receberam, na semana passada, uma ordem de reintegração de posse e de despejo. É uma decisão judicial que determina a saída de todas as pessoas da ocupação. Na manhã da última terça-feira (14), fizeram uma passeata pelas ruas da cidade; a tarde, em Joinville, participaram de reuniões na AGU (Advocacia Geral da União) e no MPF (Ministério Público Federal).

Cerca de 680 pessoas moram na ocupação, dentre elas, 245 crianças, que escolheram o local por dificuldades com aluguel ou com o pagamento de seus antigos terrenos. Algumas pessoas saíram do bairro depois da ameaça de despejo. Em sua maioria, são trabalhadores que juntaram dinheiro, ao longo dos anos, para construírem suas residências. O território da ocupação é da Secretaria de Patrimônio da União (SPU). A SPU, do governo federal, tem permissão para desocupar as casas porque recebeu aval.

Maiane Alves de Oliveira, 28, e Rômulo da Cruz França, 30, são moradores da ocupação. Ele é trabalhador autônomo, fazia trabalhos informais e investiu as economias na obra da casa. Maiane está desempregada. O casal tem uma filha. Maiane e Rômulo vão em todas as reuniões e ajudam a associação financeiramente. Com parentes no Pará, as dificuldades para Maiane aumentam. “Fico triste, temos crianças”, diz a mãe. Conforme Rômulo, se o casal ficar sem casa, vai botar as coisas dentro do carro para não ficar na rua. 

Solange Borges da Motta, 29, mora no bairro há 3 anos. Faz parte da associação e tem dois filhos. Em defesa do espaço, ela contribui buscando seus direitos de moradia, conversando com o povo da ocupação e de Araquari. “Queremos nada de graça”, reclama. A intenção da moradora é a regularização do terreno para moradia. Ela tem poucos parentes para pedir ajuda, as condições de seus familiares nem sempre são boas. É a realidade da maioria ali dentro, que escolheu morar na ocupação por dificuldades financeiras. “Eu sei que todo mundo tem direito a um pedacinho de terra, então, quero pagar meus impostos, eu já pago a taxa de lixo. Só quero um direito de moradia”, explica, confiante de que vai conseguir manter a casa na ocupação. 

“Não quero discutir minha casa. Vou ficar morando aqui muito tempo”, diz Miguel. Quando foi questionado se teria outra alternativa para moradia, Miguel respondeu que nenhum parente pode ajudá-lo. “Só eu e Deus”, afirma o morador. 

Miguel Antonio Tkcsuk, 56, está do lado direito. Francisco Lino Mileki da Conceição, 33, de boné, e Jean Adriano Nunes, 55, do lado esquerdo, são seus amigos. 

 

Leonice Pimentel Maciel, 39, foi morar na ocupação porque não quer mais pagar aluguel, quer uma terra para melhorar a vida dos filhos. Leonice passa por muitas necessidades na ocupação, algumas se aplicam à água e luz. Também quer regularização para as crianças estudarem em uma escola no bairro. “Já estão estudando, já tá uma grande coisa”, fala. Para ela, a alternativa é pagar aluguel, mas não pode. “Alguns não tem como pagar aluguel”, conclui. 

Leonice não quer pagar aluguel porque quer um futuro melhor para a família. A filha Paola Maciel da Silva, 19, está do lado direito. Erica Lucia Maciel da Silva, 18, está do lado esquerdo, e Nicoly Maciel da Silva, 9.

 

Marilene Pereira dos Santos Antero, 46, é jardineira e diarista. Ela mora com Venicius Neces, 49. O marido trabalha como pedreiro. A situação da Marilene é muito delicada. Venicius, seu marido, está de cama porque sofreu um acidente quinta-feira passada. O casal pagava aluguel e achou que era um lugar legalizado. Marilene argumenta que pagou pelo local e paga taxa de lixo. “Vai vim polícia para desocupar. Como que vou ficar com meu marido que sofreu acidente? Tá acamado, usando fraldas, como que eu vou deixar meu marido? Onde a gente vai? A gente não tem pra onde ir”, reclama.  Ela foi entrevistada depois da passeata. “O prefeito nem quis receber as pessoas, como é que eles vão tirar a gente daqui, agora, com meu marido acamado?”, questiona, chorando. Venicius vai ficar 90 dias de cama. “Para onde a gente vai?”, pergunta ao prefeito. “O senhor teria coragem de colocar uma pessoa inválida na rua? Colocar a gente na rua?”, continua.

Silas Ventura, 37, é pedreiro. Mora na ocupação há seis anos, tem dois filhos. Eles não sabem o que fazer ainda, caso tenham que sair dali. Agora que começaram a mexer na casa, estão construindo. As telhas estão ao lado de casa, prontas para a reforma. “Vamo tirar o que der e não sabemos nem para onde levar”, declara Silas.

Marcos Roberto Duarte, 38, o Marquinho, está há 3 anos na moradia. Caso seja obrigado a sair da casa, vai desmontar tudo e botar debaixo da ponte. “Mas Araquari não tem nem ponte pra gente”, diz. A família tem um casal de gêmeos. “É lado político que tá acontecendo aqui, ninguém quer dar uma força. Ajude os pobres, por favor. Nem todos conseguem rapidinho um terreno e quitar”, implora.

A Polícia Militar ainda não recebeu ordem para fazer despejos, mesmo sabendo da decisão judicial.

 

Protesto reúne trabalhadores 

Josias dos Santos é indígena, está na ocupação há nove anos. Durante a manifestação pela manhã, falou em frente à prefeitura. “Queremos apenas viver, poder ter a nossa família ao nosso redor, para ter os colégios, o melhor para a sociedade”. reivindica. Ele lembrou, no discurso, que tem pessoas na cama, que não podem caminhar. “Tão lá no nosso meio, tem pessoas que estão de cadeira de rodas, tem pessoas que não tem condições nem mesmo de dar um grito de guerra hoje”, grita. 

Dulcio Antonio de Araujo é padre. Ele estava no ato ecumênico de domingo. Na terça, também na frente da prefeitura, falou para as pessoas da ocupação e aos governantes. Conforme Dulcio, Jesus sempre estava no meio do povo e dava uma atenção especial aos cegos, aos paralíticos, aos leprosos, aos menos favorecidos da sociedade, ou seja, quem era ignorado pelo poder público da época. 

“Se nós não gritarmos por nossos direitos, quem que vai nos conceder?”, pergunta. Para o padre, quem tem dinheiro, tem poder e um monte de regalias. “Se o povo não se organizar, vai morrer de fome, vai morrer no relento, então, temos que nos organizar, temos que nos unir. Vamos nos unir. Vamos nos manter firme na caminhada”, convoca.

Conforme um dos cartazes confeccionados no domingo, as crianças acreditam que não tem família sem moradia. Em outros cartazes, as crianças também reivindicaram direitos para trabalhadores do campo e da cidade, além de mensagens cristãs. No dia 12, as crianças fizeram um desfile com os cartazes. Na terça, dia 14, elas levaram os cartazes nas manifestações. 

Morador com um dos cartazes confeccionados para as manifestações: enquanto morar é privilégio, ocupar é um direito.

 

Erico Dias é presidente da Associação de Moradores. Durante o protesto na frente da prefeitura, discursou contra o prefeito. “Eles estavam olhando ali do gabinete, mas eles fecharam a prefeitura”. O prefeito não apareceu. “Dentro do bairro Jardim das Oliveiras que temos 443 títulos transferidos para Araquari. E ele pode ter certeza na próxima eleição nós vamos fazer diferença”, diz. 

 

Baque Mulher se apresenta na vigília

No começo da vigília de resistência da ocupação, na noite de ontem, quando a comunidade se organizava para assistir o Baque Mulher, Erico Dias fez um alerta para o Jardim das Oliveiras. Muitas mensagens e informações são compartilhadas nas redes sociais, mas também compartilham muitas mentiras. Erico avisou sobre a circulação de notícias falsas, que podem prejudicar a comunidade.

Wanderlei Monteiro de Souza, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, fez uma denúncia contra o Conselho Tutelar. Segundo o militante do PT, o Conselho Tutelar questionou o fato de as crianças participarem das manifestações. Para Wanderlei, o Conselho Tutelar não mostra nenhuma preocupação pela moradia, mas questiona as crianças protestando.

Depois dos informes, o Baque Mulher fez uma apresentação. As mulheres enfatizaram que as vidas delas devem ser respeitadas, que nenhuma mulher pode sofrer violência.